Tráfego pago sem vender nada: como levamos um projeto cultural a 195 mil pessoas nos Vales do Jequitinhonha e Mucuri

Quase todo conteúdo sobre tráfego pago parte da mesma premissa: anúncio serve para vender. Tem funil, tem conversão, tem “escala”. Um projeto cultural, público, sem nada para vender, parece não caber nessa lógica.

E não cabe mesmo. Por isso a estratégia precisou ser outra.

Ao longo de 2026, fui responsável pela estratégia de tráfego pago do Pontão de Cultura Confluências. O projeto é realizado pela VOKUIM (Cultura, Educação e Cidadania), organização com 20 anos de atuação no Vale do Jequitinhonha. É viabilizado pela Política Nacional Aldir Blanc (PNAB) e foi selecionado em primeiro lugar no edital de Pontos e Pontões de Cultura de Minas Gerais. A missão: fortalecer a Política Nacional de Cultura Viva em 48 municípios dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri.

Aqui conto como planejamos, como executamos e o que os dados mostraram.

O case em números (fev. a ago./2026)

InvestimentoR$ 4.207,21 no Meta Ads (o restante da verba de tráfego foi para o Google Ads)
Contas alcançadas195.697 (a meta mínima era 10 mil)
Impressões1.031.881
CPM médioR$ 4,08 (o teto era R$ 25)
Cliques no link17.103, com CTR médio de 1,66%
Território47 municípios dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri
Pessoas cadastradas nas formaçõesMais de 100, somando todos os cursos
Presença média por aulaDe 30 a 50 participantes

A premissa: tráfego pago como política cultural

A primeira decisão estava escrita no briefing antes de qualquer campanha: o tráfego pago seria usado como instrumento de política cultural, sem lógica comercial. Nada de funil de vendas. A função dos anúncios era:

  • dar existência pública ao projeto nos territórios;
  • distribuir a informação de forma equilibrada entre os 48 municípios;
  • levar pessoas aos ciclos formativos;
  • fazer circular os produtos audiovisuais financiados pelo projeto.

Na prática, isso muda o que se considera resultado. O sucesso não era custo por venda. Era alcance territorial real, gente se inscrevendo nas formações e o conteúdo chegando a quem faz cultura longe das cidades-polo.

A estratégia: quatro blocos e metas antes dos anúncios

Organizamos o tráfego em quatro blocos que acompanham o ritmo do projeto:

  1. Articulação: apresentar o Pontão e mobilizar a rede.
  2. Formação: levar agentes culturais aos ciclos formativos.
  3. Narrativa: fazer circular as campanhas audiovisuais.
  4. Memória: consolidar o legado e o e-book.

Antes de subir qualquer anúncio, montamos uma planilha de controle com metas trimestrais:

  • pelo menos 2.500 contas alcançadas e 15.000 impressões por trimestre;
  • CPM de até R$ 25;
  • CTR médio de pelo menos 1%.

A meta mínima do projeto era alcançar 10 mil contas até outubro.

Parece burocracia, mas não é. É o que permite olhar para um número depois e saber se ele é bom ou só bonito.

A execução: segmentar pelo território real

Na prática, o investimento se concentrou em duas campanhas, ambas segmentadas município por município.

Articulação (a partir de fevereiro). Uma campanha de reconhecimento para apresentar o projeto e as formações, direcionada a 47 municípios dos Vales.

Formação (a partir de março). Uma campanha voltada a inscrições nos ciclos formativos. Os ciclos foram online e gratuitos, de março a setembro, com temas como Cadastro Nacional de Pontos de Cultura, elaboração de projetos, Sistema Nacional de Cultura, gestão de coletivos, editais e cultura como direito.

E aqui está o detalhe que fez diferença: no meio do caminho, os dados mostraram que 25 municípios ainda não tinham nenhuma inscrição. Em vez de aumentar o orçamento geral e torcer, criamos uma estratégia específica para essas cidades. Dividimos os municípios por região imediata (Almenara, Teófilo Otoni e Pedra Azul) e fizemos anúncios que chamavam cada cidade pelo nome (“Você faz cultura em Mata Verde, Palmópolis ou região?”). A partir do décimo dia, entrava um remarketing para quem tinha visto e ainda não tinha se inscrito.

Só no grupo da região de Almenara, cerca de R$ 275 alcançaram quase 18 mil contas.

O tráfego também não andou sozinho. Tinha um calendário orgânico mensal no Instagram, spots de rádio e o encontro presencial em Berilo, na Comunidade Roça Grande, com oficina de inventário participativo conduzida pelo IPHAN-MG. O anúncio amplifica. O que sustenta é o projeto.

Os resultados

Entre fevereiro e agosto de 2026:

  • 195.697 contas alcançadas, quase 20 vezes a meta mínima de 10 mil;
  • 1.031.881 impressões, com a meta trimestral de 15 mil superada em todos os trimestres (357 mil, 477 mil e 196 mil);
  • CPM médio de R$ 4,08, cerca de seis vezes abaixo do teto de R$ 25;
  • 17.103 cliques no link, com CTR médio de 1,66%, acima da meta de 1% em todos os trimestres e chegando a 2,37% no terceiro;
  • 95 mil engajamentos com as publicações;
  • R$ 4.207,21 investidos no Meta Ads. O restante da verba de tráfego foi destinado ao Google Ads, que vai ganhar um post só dele.
  • Mais de 100 pessoas cadastradas nas formações, com média de 30 a 50 participantes por aula.

Alcance mostra que as pessoas viram. Cadastro e presença em aula mostram que elas agiram. Esse é o número que importa para um projeto de formação.

O Instagram concentrou a maior parte da entrega: cerca de 86% do investimento e 174 mil contas alcançadas.

O que os dados também ensinaram

Dados precisam de contexto, inclusive quando não são tão bonitos.

O consumo de vídeo ficou abaixo do planejado: o tempo médio de visualização foi de cerca de 4 segundos. Isso não invalida a campanha. Mostra que o vídeo precisa ganhar atenção nos primeiros segundos, e esse aprendizado vai para as próximas peças audiovisuais do projeto.

Outro ponto: o Meta Ads não informa alcance por município, só por estado. Para provar distribuição territorial, a segmentação precisa ser feita cidade por cidade desde o início. Foi o que fizemos, e é o que eu recomendo para qualquer projeto com recorte territorial.

Perguntas frequentes

Tráfego pago funciona para projeto cultural?

Funciona, desde que o objetivo seja outro. Em projeto cultural, o anúncio não serve para vender. Serve para levar informação a quem precisa dela: dar alcance territorial, trazer inscrições para as formações e fazer circular os conteúdos do projeto. No Pontão Confluências, R$ 4,2 mil alcançaram 195 mil contas em 47 municípios, e as formações tiveram mais de 100 pessoas cadastradas, com 30 a 50 participantes por aula.

Quanto investir em anúncios num projeto com recurso público?

Não existe valor certo. O que existe é meta definida antes de investir. Neste case, a verba de tráfego foi dividida entre Meta Ads e Google Ads, e só a parte do Meta, R$ 4,2 mil, já bateu as metas trimestrais de alcance, impressões e CPM. Começar com metas claras ajuda a distribuir o orçamento entre os canais pelo papel de cada um, e não só porque o dinheiro existe.

Como segmentar anúncios por município no Meta Ads?

No conjunto de anúncios, em Localizações, adicione cada cidade pelo nome, em vez de marcar o estado inteiro. Dá mais trabalho, mas garante que o anúncio chegue aos municípios menores, e não só às cidades-polo. Quando alguns municípios ficam para trás, vale criar campanhas por região e chamar cada cidade pelo nome no criativo.

O que fica

O resultado não veio de um segredo nem de um hack de configuração. Veio de quatro decisões simples:

  1. definir o papel do tráfego antes de definir o orçamento;
  2. estabelecer metas antes de investir;
  3. segmentar pelo território real, e não pelo mais fácil;
  4. ajustar a rota quando os dados mostraram quem estava ficando de fora.

Tráfego pago não resolve tudo. Mas, com estratégia, ele pode servir a uma política pública e levar cultura e informação a quem precisa, gastando pouco.

Menos achismo. Mais estratégia.

Tem um projeto cultural, social ou com recurso público?

Dá para usar tráfego pago com estratégia, sem desperdiçar verba e sem tratar o anúncio como funil de vendas. Se você quer planejar a divulgação do seu projeto com metas claras e dados de verdade, me chama.

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Lillian Almeida

Com 27 anos, sou jornalista e estrategista de tráfego, especializada em conectar marcas ao público de maneira assertiva.